"Querem os nossos sentimentos pois então aqui os têm. Bem ou mal, é isto. Viemos para Évora, muitos de nós, porque tínhamos um sonho, um sonho que era o Teatro, era uma palavra tão estranha como o sonho que cegamente habitávamos. Viemos com a esperança ilusória de que o nosso sonho ou a determinação obstinada do nosso coração nos tinham guiado a este lugar estranho habitado por corpos e palavras e uma imaginação que voava livremente. Eu quero falar-vos de liberdade. Eu quero falar-vos de paixão. Eu quero falar-vos de sonhos. A liberdade é sempre minha. Sempre. Isso é inquestionável. Para me exprimir plenamente, a minha criação não pode ser moldada de acordo com interesses pessoais de outros ou por questões estéticas alheias. Aqui só há interesses, só isso. E os interesses de uns influenciam o crescimento da criação de pessoas que vieram atrás de uma peixão, de sonhos, que vieram atrás de uma liberdade que só pode ser alcançada por meios artísticos. Tenho cada vez mais a noção de que se não me pudesse exprimir aqui no teatro e por formas artísticas, eu, pessoalmente, já estava preso por atentado ao pudor, por exemplo. O problema não são só os interesses. O problema é a falta de compreensão, a falta de paixão, a falta de coração, a falta de vontade. Focamos os nossos problemas no lixo que se acumula, nas fracas infra-estruturas, nas deficientes condições sanitárias e esquecemo-nos de uma lição que o Teatro nos ensinou. Que o teatro não é uma coisa material – tendemos sempre a desviar a nossa atenção disso. E desviamos do quê? Podem vocês perguntar. Chama-se paixão. Chama-se estar apaixonado. Estar apaixonado é cuidar e não desistir quando estamos magoados. Somos pequenos quase sempre e esquecemo-nos de que a universidade não serve para comer e calar, mas para comer e dar a comer de volta, mesmo quando algumas pessoas não têm a boca aberta. Não vim para aqui para ser mais um. Quero marcar a diferença. Como posso fazê-lo quando quem me deveria abrir as asas cortamas? Quando os que me deveriam fazer crescer me empurram mais para baixo? Somos pequeninos e os grandes matam-nos os sonhos. Se calhar de alguma coisa que nunca sentimos vivo. Andam-se aí a matar palavras. Mostram-nos mundos só para dizer que não podemos tocar. Ou podemos tocar mas não podemos provar. Fazem o papel de Deus quando são só humanos que se esqueceram daquilo que um dia também amaram. Não sou de guerras nem de lutas. Sou artista, sou vulnerável. Não brinquem com aquilo que amo. Não me impinjam tempos, nem formas, nem matérias. O teatro é livre e só assim é que vale a pena. Nós somos livres e só assim é que os sonhos e o amor permanecem vivos. Mesmo quando tudo parece morto, estático, inerte e sem solução.
Hoje o meu pai chorou comigo ao telefone por eu já não querer estar aqui, porque me ouviu chorar. E disse-me, mas gostas tanto disso, gostavas tanto de estar aí. E o que é que eu digo a isto? Agora não tenho nada para dizer. Há um homem que admirei a minha vida toda, que dizia, como se falasse comigo. “Mais vale morrer de pé do que viver ajoelhado”. Acabou-se o tempo de silêncio, de fingir que as atitudes não magoam, e que nós só temos de comer. Isto sou eu a arrotar e cheira quem quer. A arte não vale a pena se não a mudarmos, se não gritarmos bem alto, se não exprimirmos, se não fizermos ouvir o nosso pé a bater no chão. Se não estamos aqui para marcar vidas então estamos aqui para quê?"
Cláudia Miriam, Daniel Moutinho, Joana Velez e Tânia Dias.
3º ano do curso de Teatro da Universidade de Évora.
Projecto O.V.N.I.

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