Deito-me no silêncio, ele abraça-me e envolve-me na sua imensa tristeza, nas suas lágrimas invisíveis mas destruidoras, no seu desespero, na sua lenta morte espiritual.
Os meus olhos fecham-se, o corpo encolhe-se, o coração começa a deixar de bater lentamente e as lágrimas caem sem direcção, cheias de dor, tanta dor que à medida que caem vão queimando tudo por onde passam.
O silêncio sempre me fez confusão, como se um dia, sem eu estar à espera, me engolisse totalmente e eu ficasse assim, no desespero, sem reacção, sem forma de ser ou estar, sem capacidade de pensar e de agir, desesperada na imensidão do meu sofrimento. Lentamente ele vai-me abraçando mortiferamente, como se me quisesse espetar as farpas mais bicudas no coração, como se fazem aos touros nas arenas, sem piedade. O silêncio, que muitas vezes me acompanhou com sorrisos felizes, com abraços quentes e sensações agradáveis, hoje abraça-me a chorar, a desesperar, a morrer aos bocados.
O silencio, aquele que poderia ser o meu mais fiel companheiro é hoje o mais fiel dos demónios, que me deixa sem respostas, sem perguntas, sem saber o que dizer ou como dizer, que me atormenta a cada segundo que passa, em que não sinto nada.
Eis que chega a altura deste silêncio se desfazer e de tomar uma atitude, de vez…
Quero sentir os meus gritos no ar, quero gritar até que nada sinta, quer gritar de desespero, de tristeza, quero que todos oiçam os meus gritos, tão altos e estridentes que ninguém conseguiria ficar indiferente. Gostava de gritar de raiva e de ódio, que são as poucas coisas que me tem acompanhado, nestas horas de horror. Mas nem eu consigo gritar nem a voz me saem, nem as palavras fazem sentido, já nem eu própria faço algum sentido. No chão do meu quarto, deitadas na minha cama, na atmosfera do meu quarto, estão todas as peças deste novelo de incertezas, espalhadas e descoordenadas, negras como o meu espírito, perfumadas como um esgoto, e nada faz sentido…nada encaixa e tal como elas, também as minhas pelas ficam espalhas e descoordenadas, sem fazer sentido…
sábado, 28 de junho de 2008
sexta-feira, 27 de junho de 2008
Adeus
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.
Eugénio de Andrade
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.
Eugénio de Andrade
quarta-feira, 4 de junho de 2008
Memórias.
Ela estava a andar pelas ruas, sozinha como sempre, com os papéis na mão, daqueles textos que tanto tinha gostado e que guardava como se da própria vida se tratasse, mas aqueles textos andavam sempre com ela, as suas memórias. Os seus longos e negros cabelos voavam e ondulavam à velocidade do vento e o céu estava negro, coberto de nuvens, prontas a explodir. Ela continuava, pelas ruas vazias, sozinha, como sempre esteve e como sempre se sentiu, com as folhas das suas memórias ao vento e com o céu negro mesmo por cima de si, sentindo-se cada vez mais pequena.
Pelas ruas vazias apenas conseguia distinguir as árvores tristes, sem folhas, como que chorando uma perda, talvez igual á sua, que começavam a abanar cada vez mais na negra noite em se instalava. Subitamente, começou-se a sentir viva, sentiu uma pequena grande gota de água na sua face, e após aquela, cada vez mais gotas caíam, mais rápidas, mais geladas, mais vivas. O seu corpo começou-se a sentir cada vez mais vivo, como nunca antes se sentira, e aquela tempestade inundou-a completamente. Inundou a sua alma, o seu corpo e as suas memórias. Ao saborear a doce tempestade esqueceu-se das suas memórias que começaram, lentamente, a desvanecer-se. No entanto, ela continuava a andar, com o corpo ensopado, a roupa com um tom mais escuro e uma sensação enorme de liberdade. Enquanto isso, as suas memórias foram perdendo cor, e cada passo que ela dava, mais os papéis voltavam a sua cor original e ela continuava a saborear aquele momento. E sem sentir nada, á medida que as suas memorias perdiam cor, também o seu cabelo perdia um pouco mais a sua cor, bem como o seu corpo, os seus olhos, a sua mão começaram, lentamente, a perder a essência, ela começou a desvanecer-se também, tal como os papeis que voltaram a ficar brancos. A chuva começou a ser ainda mais forte e a cair com mais força e quanto mais força ela caía nas ruas mais os papeis perdiam a cor azul bem como ela se ia, lentamente, desvanecendo. A chuva parou, as árvores deixaram de abanar e a única coisa que restou daquele momento foram os papéis, completamente secos, em branco, como novos, prontos a serem escritos novamente.
Pelas ruas vazias apenas conseguia distinguir as árvores tristes, sem folhas, como que chorando uma perda, talvez igual á sua, que começavam a abanar cada vez mais na negra noite em se instalava. Subitamente, começou-se a sentir viva, sentiu uma pequena grande gota de água na sua face, e após aquela, cada vez mais gotas caíam, mais rápidas, mais geladas, mais vivas. O seu corpo começou-se a sentir cada vez mais vivo, como nunca antes se sentira, e aquela tempestade inundou-a completamente. Inundou a sua alma, o seu corpo e as suas memórias. Ao saborear a doce tempestade esqueceu-se das suas memórias que começaram, lentamente, a desvanecer-se. No entanto, ela continuava a andar, com o corpo ensopado, a roupa com um tom mais escuro e uma sensação enorme de liberdade. Enquanto isso, as suas memórias foram perdendo cor, e cada passo que ela dava, mais os papéis voltavam a sua cor original e ela continuava a saborear aquele momento. E sem sentir nada, á medida que as suas memorias perdiam cor, também o seu cabelo perdia um pouco mais a sua cor, bem como o seu corpo, os seus olhos, a sua mão começaram, lentamente, a perder a essência, ela começou a desvanecer-se também, tal como os papeis que voltaram a ficar brancos. A chuva começou a ser ainda mais forte e a cair com mais força e quanto mais força ela caía nas ruas mais os papeis perdiam a cor azul bem como ela se ia, lentamente, desvanecendo. A chuva parou, as árvores deixaram de abanar e a única coisa que restou daquele momento foram os papéis, completamente secos, em branco, como novos, prontos a serem escritos novamente.
O deserto.
E a menina pequenina com um sorriso de 5 anos desfeito, a alma coberta de lágrimas e o corpo machucado de tantas cicatrizes, lentamente, chegou perto do anjo das asas negras, e olhou para ele e para o seu sorriso que sempre a acompanhara em pensamento.
Como era bonito aquele anjo! Os seus longos cabelos castanhos, os seus caracóis ondulados como as ondas do mar que devasta uma essência, o seu porte, a sua postura, estava com a cabeça baixa e os olhos choravam o sangue que corria nas suas veias até ela chegar perto dele. Quando a menina se aproximou daquele ser, as suas lágrimas secaram, o seu sorriso apareceu, e os seus olhos ganharam um brilho diferente.
A menina apaixonou-se por aquele anjo protector, que cuidava dela todos os dias, uma paixão diferente de todas as outras, no entanto, uma paixão intensa. E sempre que a menina chegava perto dele, ele abria as suas longas asas negras e abraçava-a acabando com o seu sofrimento. E a menina vivia feliz porque tinha um anjo sempre com ela, que a protegia, que voava com ela, que dançava no silêncio com ela, aquelas danças que mais ninguém iria entender. Mas um dia, a menina apareceu, naquele deserto escuro e quente,e como sempre, olhou para o anjo, esperando que ele olhasse para ela e entendesse que, mais uma vez, ela precisava dele e que ele iria entender, de certeza, o que ela tinha e abriria as suas longas asas curando a sua tristeza. Porém naquele dia o anjo não se moveu, não levantou a cara, não sorriu, os seus olhos não brilharam. Naquele dia o anjo não abriu as suas asas à menina e ela voltou costas e chorou sozinha, sentada naquele deserto escuro de emoções…
Como era bonito aquele anjo! Os seus longos cabelos castanhos, os seus caracóis ondulados como as ondas do mar que devasta uma essência, o seu porte, a sua postura, estava com a cabeça baixa e os olhos choravam o sangue que corria nas suas veias até ela chegar perto dele. Quando a menina se aproximou daquele ser, as suas lágrimas secaram, o seu sorriso apareceu, e os seus olhos ganharam um brilho diferente.
A menina apaixonou-se por aquele anjo protector, que cuidava dela todos os dias, uma paixão diferente de todas as outras, no entanto, uma paixão intensa. E sempre que a menina chegava perto dele, ele abria as suas longas asas negras e abraçava-a acabando com o seu sofrimento. E a menina vivia feliz porque tinha um anjo sempre com ela, que a protegia, que voava com ela, que dançava no silêncio com ela, aquelas danças que mais ninguém iria entender. Mas um dia, a menina apareceu, naquele deserto escuro e quente,e como sempre, olhou para o anjo, esperando que ele olhasse para ela e entendesse que, mais uma vez, ela precisava dele e que ele iria entender, de certeza, o que ela tinha e abriria as suas longas asas curando a sua tristeza. Porém naquele dia o anjo não se moveu, não levantou a cara, não sorriu, os seus olhos não brilharam. Naquele dia o anjo não abriu as suas asas à menina e ela voltou costas e chorou sozinha, sentada naquele deserto escuro de emoções…
segunda-feira, 2 de junho de 2008
A Descoberta.
Existem pessoas que passam na nossa vida, que deixam marcas em determinados momentos e que acabam por se desvanecer ficando uma leve recordação na nossa vida, existem outras que existem todos os dias, mas que, por alguma razão, não conseguem chegar ao coração, por mais que tentem. Por fim, existem outras, que aparecerem na nossa vida de forma inesperada e que naquele momento se sente que aquela pessoa é realmente especial e que vai ficar para sempre dentro de nós. Porque? Porque há coisas que não se descrevem, por mais palavras que arranjemos temos mesmo de sentir as coisas, de coração aberto. Essas pessoas especiais são especiais, na sua essência, pelas atitudes que têm, pela forma como se comportam, a forma como cativam ou não as pessoas e até pelo seu sorriso. Ás vezes, sem esperarmos, essas pessoas tropeçam na nossa vida. E ai começa a descoberta. A descoberta de que temos os mesmos desejos, as mesmas atitudes, a mesma forma de gostar e até o mesmo tipo de dor. Costumo dizer que não são os momentos bons que juntam as pessoas mas sim aqueles em que partilhamos o sofrimento e um ombro amigo para chorar. Parece que ambas padecemos do mesmo tipo de doença, amar demais, pensar demais, planear demais e querer demais? Será que realmente queremos demais? Ou não queremos apenas aquilo que nos é devido? Temos o direito à felicidade e acima de tudo ás respostas aos nossos problemas, que por mais volta que lhes demos, não achamos solução. E é nesta partilha que descobrimos o ser que está diante de nós, que tal como nós, é frágil e sensível, mesmo que escondido por muralhas de aço, mesmo com uma capa e uma mascara a esconder o rosto, por vezes, a máscara cai, e o teatro desfaz-se. E é quando encontramos esse olhar tão sofrido e semelhante ao nosso e quando as mãos se dão, que se gera um sentimento demasiado bonito para se falar nele, é quando descobrimos que não estamos sozinhas, que existe alguém que nos entende na perfeição, tão perto de nós. Eu descobri essa pessoa, que me diz que gosta de mim com o sorriso rasgados e que me sabe aconchegar o coração quando ele se sente mais machucado e ferido. Descobri-te a ti gémea. Obrigado por tudo.
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