sexta-feira, 27 de junho de 2008

Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;

era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.


Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.

E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.


Não temos já nada para dar.

Dentro de ti
não há nada que me peça água.

O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugénio de Andrade

Um comentário:

Rubi Girão disse...

Eu conheço este texto*

Umas moças da minha turma fizeram um dia uma mini-performance com as palavras deste senhor*

E para te informar:

2,3 e 4 há peça do Mestrado de Teatro no Garcia Rezende, pelas 21.30. Não se paga, só tens de marcar lugar. Eu vou ver dia 2.

Dias 3, 4 e 5 peça do 3º ano de teatro, 21.45, Convento do Carmo. Marca lugar. Se quiseres fala comigo que eu marco. Eu vou ver dia 3 mas como estou a trabalhar para eles devo ver todos os dias.

Beijoca***