Ela estava a andar pelas ruas, sozinha como sempre, com os papéis na mão, daqueles textos que tanto tinha gostado e que guardava como se da própria vida se tratasse, mas aqueles textos andavam sempre com ela, as suas memórias. Os seus longos e negros cabelos voavam e ondulavam à velocidade do vento e o céu estava negro, coberto de nuvens, prontas a explodir. Ela continuava, pelas ruas vazias, sozinha, como sempre esteve e como sempre se sentiu, com as folhas das suas memórias ao vento e com o céu negro mesmo por cima de si, sentindo-se cada vez mais pequena.
Pelas ruas vazias apenas conseguia distinguir as árvores tristes, sem folhas, como que chorando uma perda, talvez igual á sua, que começavam a abanar cada vez mais na negra noite em se instalava. Subitamente, começou-se a sentir viva, sentiu uma pequena grande gota de água na sua face, e após aquela, cada vez mais gotas caíam, mais rápidas, mais geladas, mais vivas. O seu corpo começou-se a sentir cada vez mais vivo, como nunca antes se sentira, e aquela tempestade inundou-a completamente. Inundou a sua alma, o seu corpo e as suas memórias. Ao saborear a doce tempestade esqueceu-se das suas memórias que começaram, lentamente, a desvanecer-se. No entanto, ela continuava a andar, com o corpo ensopado, a roupa com um tom mais escuro e uma sensação enorme de liberdade. Enquanto isso, as suas memórias foram perdendo cor, e cada passo que ela dava, mais os papéis voltavam a sua cor original e ela continuava a saborear aquele momento. E sem sentir nada, á medida que as suas memorias perdiam cor, também o seu cabelo perdia um pouco mais a sua cor, bem como o seu corpo, os seus olhos, a sua mão começaram, lentamente, a perder a essência, ela começou a desvanecer-se também, tal como os papeis que voltaram a ficar brancos. A chuva começou a ser ainda mais forte e a cair com mais força e quanto mais força ela caía nas ruas mais os papeis perdiam a cor azul bem como ela se ia, lentamente, desvanecendo. A chuva parou, as árvores deixaram de abanar e a única coisa que restou daquele momento foram os papéis, completamente secos, em branco, como novos, prontos a serem escritos novamente.
quarta-feira, 4 de junho de 2008
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2 comentários:
Guardamos as nossas memórias como o nosso tesouro mais querido e valioso. Guardamo-las no sítio mais seguro que conhecemos, mais aconchegado, onde nada lhes pode acontecer.. ou então andamos com elas quando para tal temos coragem. É-lhes indiferente, elas são duras como a pedra e não gostam de ser esculpidas, existem tal como foram criadas.. ou assim gostariam. Podem magoar, ferir e fazer uma pessoa sacudir a cabeça quando emergem, mas é-lhes indiferente. Também podem fazer alguém sorrir, ainda assim não mudam o seu carácter duro e quase inflexível.
Muitas vezes... oh quantas! gostaríamos que fossem diferentes.. ou que certas recordações não acontecessem.. pegar numa borracha e apagá-las todas todas para não nos massacrarem. Deitar-lhes fogo para não serem tão simplesmente a nossa sombra.. mas seríamos nós sem as nossas memórias?
Vocemessê anda muito filosófica e poética ;) ainda só li este texto e os que me mostraste no outro dia, prometo debruçar-me com mais atenção sobre isto assim que tiver mais livre de trabalhos, tim? Bêjo e obrigado ^^ **
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