sábado, 6 de março de 2010

Leituras eternas ao cair da tarde

Vivemos todos num labirinto. Olho-me ao espelho e mal reconheço o homem que nele se reflecte. Estou gordo. Inchado. Tenho olheiras. A pele cinzenta à volta dos olhos. E pêlos, pêlos horríveis que saem todas as semanas do nariz e das orelhas. Faço 55 anos em Outubro.
Nos braços nasceram-me sinais. Todos os anos nascem, o médico diz que é natural, tão natural como a barriga de álcool e a falta de vista. Agora, ando sempre de óculos na ponta do nariz. Até me dão um ar vagamente interessante. Se quiser, ainda seduzo mulheres com menos de 40 anos. Faço 55 anos em Outubro.
Olho para o espelho e não me vejo como sou. Na imagem estou lá eu, há 20 anos atrás, antes dos pêlos indesejados, da miopia que chegou sem pré-aviso, da barriga que não pára de crescer, quando ainda acreditava que só valia a pena estar com uma mulher por quem tivesse a maior tesão do mundo. Não o tesão habitual, que um homem pode ter por qualquer corpo quando olha e cobiça. O tesão do podre, da posse, da carne, o tesão que te dá vontade de cravar um ferro em brasa com as tuas iniciais no corpo dela, para que ela seja só tua, mesmo que fuja e nunca mais volte.
A minha mulher já não é nem bonita. Os traços da cara tornaram-se fortes, duros, marcados como linhas a tinta da china. Só o olhar se mantém vivo, atento, expressivo, como o de uma leoa. Tenho medo do olhar dela, por isso escondo o meu atrás dos óculos, uso a miopia como arma de defesa. Não sei se amo, sei que não posso viver sem ela. Estamos os dois a envelhecer, estamos os dois cansados de beber e de comer e de fumar tanto. Estamos os dois perdidos no mesmo labirinto. Às vezes, encontramo-nos no meio das nossas bebedeiras civilizadas e eu vejo-a jovem, bela, magra, ainda poupada às minhas ausências e falhas, e penso que estou quase outra vez a apaixonar-me por ela.“

[Margarida Rebelo Pinto in "Vou contar-te um segredo"]

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